SEMENTEIRA 

Espetáculo infantil

SINOPSE

Cinco narradores, viajantes mágicos,  contam como uma cidade inteira mergulhou em grande escuridão ao se esquecer de suas histórias: a partir daí, uma viagem pelo tempo e pelo espaço levará os habitantes dessa cidade a reencontrarem com brincadeiras e imaginação as sementes das histórias esquecidas.

RELEASE

O espetáculo “Sementeira” resulta de uma parceria entre dois grupos do ABC Paulista: o Teatral Rizoma, sediado em Ribeirão Pires, e o Pontos de Fiandeiras, sediado em Santo André. Tal parceria se estabeleceu no processo de montagem do espetáculo “Ponto Segredo. Primeiros Fios”, quando o grupo Garagem de Teatro (grupo que reunia integrantes do Teatral Rizoma) assumiu a cenografia do espetáculo do grupo Pontos de Fiandeiras.

A idealização e realização de um espetáculo para crianças, que tratasse da memória e da importância das histórias, reuniram novamente os dois coletivos, objetivando também no processo de pesquisa a troca de experiências e de metodologias de trabalho entre os grupos.

Os artistas integrantes dos grupos são oriundos de diferentes instituições de formação na área artística, tais como a ELT – Escola Livre de Teatro, Fundação das Artes de São Caetano do Sul, SP Escola de Teatro, Universidade Anhembi Morumbi, Universidade São Judas Tadeu, UNESP - Universidade Estadual Paulista, UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo e USP – Universidade de São Paulo. Tais formações, com experimentações distintas, fomentaram a participação ativa não apenas no campo da atuação, mas na pesquisa da cenografia, figurinos, musicalidade, dramaturgia, entre outros campos que compõem a estruturação de uma peça teatral.

A pesquisa inicial deu-se pela narrativa de histórias pessoais, especificamente do período da infância, a fim de que fossem levantadas questões que povoam o universo infantil, e, consequentemente, as influências que tais acontecimentos ocasionaram na formação do adulto. A escolha pela narrativa apontou um ponto específico de interesse: as formas de contar histórias, a possibilidade de criação de imagens a partir da palavra como uma experiência particular de entendimento – “a história é um acontecimento no instante em que se atualiza dentro de nós”1. Contar e ouvir histórias propicia o contato com imagens internas que configuram experiências e constroem conhecimento, pelo simples uso da imaginação.

O tratamento dessas narrativas pessoais, visando a universalidade dos temas abordados resultou em oito cenas, que tratam das relações que a criança gradativamente estabelece: com a família, os amigos e a escola, até a compreensão da sua existência no mundo. O lugar da imaginação, para onde a criança facilmente se transporta, é o lugar da possibilidade de transcender o tempo e a morte, da afirmação da condição de criador. Nessa perspectiva, o espetáculo abarca, além do público infantil, o público adulto que busca resgatar suas histórias juntamente com os atores narradores, refletindo sobre a necessidade urgente em garantir à infância o seu direito a este espaço do sonho, do impossível, do infinito.

Os narradores condutores dessa viagem, que buscam replantar a sementeira – árvore das histórias, são figuras que transcendem o tempo e o espaço, transitam nesse campo da imaginação, onde tudo é flexível e potente. Se aceitamos o convite para esta viagem, ressoa em nós a experiência do outro, e reconhecemos que nossas imagens internas é que nos proporcionam significações, registram as compreensões que acumulamos ao longo da trajetória vivida.

Estimular a imaginação através da experiência narrativa torna-se imprescindível, uma vez que as crianças estão submetidas diariamente a uma grande quantidade de imagens, não raro estereotipadas, que conduzem a vivências esvaziadas de sentido, ou seja, incapazes de tornar integrado o conhecimento que possibilita a compreensão de si e do mundo. “A função fabuladora adquire toda a sua extensão pela palavra. É preciso que uma imagem fabulosa seja dita e redita. E a cada repetição é preciso que um rasgo da palavra traga uma novidade. A imagem visual é apenas um instantâneo. A verdadeira fábula é a fábula falada, a fábula falada e não recitada – gritada na verdade do entusiasmo e não declamada. Em suma, a função fabulatória pertence ao reino do poético.”2

 

1 – MACHADO, R. Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

2 – BACHELARD, G. Fragmentos de uma Poética do Fogo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

 

 

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO: João Paulo Maranho

 

DRAMATURGIA: Vivian Darini

 

ELENCO: Anderson Costa | Camila Shunyata | Roberta Marcolin Garcia | Vivian Darini

 

MÚSICO: Humberto Lima

 

DIREÇÃO MUSICAL E PREPARAÇÃO VOCAL: Humberto Lima

 

ELEMENTOS CENOGRÁFICOS: Ana Paula Patrone e João Paulo Maranho

FIGURINO: Ana Paula Patrone

CONCEPÇÃO DE LUZ: André Prado

OPERAÇÃO DE LUZ: André Prado e Pitty Santana

MAQUIAGEM: Ana Paula Patrone

WORKSHOP DE PALHAÇO: Felipe Gomes Moreira

FOTOS: Débora Bolzan

PRODUÇÃO: Teatral Rizoma e Pontos de Fiandeiras

 

DATA DA ESTRÉIA: 25/05/2016

 

LOCAL: Sesc Santo André (Santo André – S.P.)

 

PÚBLICO: Livre

 

DURAÇÃO: 60 minutos

 

AGRADECIMENTOS

 

Às Nossas Crianças, Filhas e Filhos, Sobrinhas e Sobrinhos... Às Crianças Pequenas e Grandes de Nossas Famílias, de nossos quintais da memória...

Adamo Darini, Adélia Nicolete, Adriana Farias, Andre Vazzios, Antônio Farias da Silva, Arca Cidadãos Artistas, Ariane da Silva Brandão, Biblioteca Hans Christian Andersen, Camila Tami Kazuki Miyakawa, Caroline Cogheto, Danielle Barbieri, Edson Leandro Silva, Elza Maranho da Silva, Felipe Siles, Fernanda Henrique, Joelma Neves, Katia Guilherme, Lilian Darini, Luiz Fernando da Silva, Luzia Teles Veras, Museu de Santo André, Nilton Rosa, Patrícia Torres, Patrick Duarte, Penélope Martins, Rafael Kuvasney Marcolin, Rafael Lemos, Talita Duarte, Teatro da Conspiração, Valdelis Dias de Brito, Zeca Capelini.

 

APRECIAÇÕES CRÍTICAS

A Sementeira traz ao público infantil uma experiência teatral preciosa a partir de um feixe de histórias que colocam situações pertinentes a um mundo em formação, de descobertas e medos. A criança se identifica vivenciando algo que fala fundo ao seu serzinho.

Por Zeca Capellini | Julho de 2016

 

Assistindo ao espetáculo "A Sementeira" lembro das experiências que aconteceram nos trabalhos para crianças nos idos dos anos 70 e 80: o advento do grupo VENTO FORTE, dirigido por Ilo Krugli com suas músicas e bonecos; as montagens do grupo CARACOL dirigindo seus trabalhos a idades segmentadas: o jogo pleno na obra de Carlos Meceni: a poesia cênica de Vladimir Capela e muitos outros trabalhos que já vinham da tradição dos textos bem estruturados de Maria Clara Machado.

Como é a criança hoje? Como ela brinca? Que teatro ela pode ver?

"A Sementeira" bebe nesta tradição e responde as questões acima trazendo a tona características cênicas que existem desde o tempo que passamos a ver o teatro para crianças de uma maneira mais interativa como Ingrid Koudela flagrou em seu livro "Jogos Teatrais":

- utilização de sucata e materiais simples

- a função de transformação de material

- quebra de linearidade narrativa

- ator assume vários papéis

- transformação do espaço

- atuação baseada na relação de jogo

- quebra da quarta parede

- processo de criação coletiva e produção de grupos cooperativados

Tudo isso permite uma fruição artística do ato cênico ampliando a experiência da criança com o teatro objetivando uma educação artística ecoando a fala de Susanne Langer:

" A educação artística é a educação do sentimento e uma sociedade que a negligencia se entrega a emoção amorfa. Má arte é corrupção do sentimento“

Tirando as teorias, "A Sementeira"traz ao público infantil uma experiência teatral preciosa a partir de um feixe de histórias que colocam situações pertinentes a um mundo em formação, de descobertas e medos. A criança se identifica vivenciando algo que fala fundo ao seu serzinho. Ao mesmo tempo que a contação das histórias a coloca num eixo de tradições trazendo questões até hoje não resolvidas pelo homem: o amor, a morte, o sentido da vida, etc...

De qualquer maneira, "A Sementeira" cumpre àquilo que perguntaram a Stanislavski sobre como seria o teatro feito para crianças:"Igual ao feito para adultos, só que melhor"

Que as sementes germinem.

 

Zeca Capellini é diretor e dramaturgo. Coordenador da Emia Santo André.

 

 

Sementeira e a leveza de um poético e brincante teatro infantil

Por William Costa Lima | Junho de 2016

 

A estética e as opções por elementos como brinquedos e brincadeiras nos coloca de maneira suave e sem didatismos a importância de testarmos a nossa capacidade de mantermos contato com o externo sem o intermédio de meios tecnológicos. 

Uma sinergia aconteceu no Sítio Cultural Alsácia(Ribeirão Pires) durante o friozinho desse junho de 2016.  O espaço, que ainda transita pelos seus primeiros dois anos de plantio, recebeu um desses grandes pequenos acontecimentos: o espetáculo “Sementeira”, uma junção do Coletivo Garagem (Ribeirão Pires) e do coletivo Ponto de Fiandeiras (Santo André). E parece que uma semente realmente foi plantada por ali.

A estética e as opções por elementos como brinquedos e brincadeiras nos coloca de maneira suave e sem didatismos a importância de testarmos a nossa capacidade de mantermos contato com o externo sem o intermédio de meios tecnológicos. Logo no início do espetáculo, um jogo vivaz relembra-nos que nosso corpo humano tende a produzir através de atos inatos: sons, movimentos e sensações. Nos é dado a chave central da história quando um fio elétrico se rompe e os narradores anunciam, sem grandes alardes, que aquelas histórias transcorrem em um espaço/tempo onde não haverá luz elétrica e logo assim não haverá televisão, computadores, celulares e as pessoas irão parar e se ouvir. A partir daí, assistimos um desenrolar poético sobre a constituição de um sujeito a partir de suas memórias de infância produzidas pelas experiências do encontro sem a mediação das tecnologias. E não só a constituição de um sujeito e sim de vários sujeitos. Pois são muitos os episódios de infância que geram empatia na plateia (que sorri e mareja os olhos) nos trazendo um híbrido movimento de sensações capaz de transitar entre as memórias boas e ruins que colhemos durante nossas infâncias.

O que vemos na direção do espetáculo não é um objetivo intencional que caminha a fábula rumo a alguma moral do mundo. Em seguida esse mesmo brinquedo nos leva ao ato de brincar com alguém, de fazer amigos. E por fim, o brincar ganha regras espontâneas e torna-se o jogo vivo. Mas esse jogo logo se dilui e vira fábula. Porque em se tratando de criança, alguém pode não avisar que saiu da brincadeira de esconde-esconde e deixar o amiguinho feito bobo lhe procurando por horas. Não seria assim tão parecido com o jogo da vida? Ou nunca alguém lhe abandonou no jogo da vida? Quantas vezes no jogo de adultos não procuramos por quem nem se quer se escondeu ne nós?

Procuras aparentemente superficiais ganham profundidade ao evocar imagens como a de um caminhão de mudança indo e levando o amiguinho que nunca mais veremos. Ou ainda a de uma criança que, após sofrer injustiças na escola e ser impedida de participar de uma festa por não ter o dinheiro da fantasia, tenta lidar com a consequência do rancor cuspindo nos caderninhos dos amiguinhos. Mesmo que de maneira equivocada, alguém diz que o ódio é também um sentimento a ser sentido e lidar com os sentimentos passa a ser a grande questão que fica aos presentes desse efêmero encontro de uma manhã de domingo. A grande questão que permeia as oito cenas do espetáculo são os movimentos em torno dos diversos sentidos de um ser humano: do paladar ao medo, do ódio ao amor. Cenas que são quadros que, com a mesma facilidade, se armam e se desarmam diante de nossos olhos sem nos causar estranhezas estéticas. Histórias fragmentadas que não falam nostalgicamente de ciclos e experiências e, sim, colocam o lugar do sentir mais no lugar imaginário e menos no lugar das ações, trazendo para nossas crianças a reflexão de que as ações são mediadas por longos e longos pensamentos. Logo assim: está liberado sentir ódio, desde que suas ações não se movam pelo ódio. Essa experiência do ódio pode ser vivida e extravasada em outra fábula: talvez na divertida cena em um ator é um Samurai e picota um grande dragão imaginário. É realmente um espaço lúdico perfeito para extravasarmos o ódio. Foi nesse momento em que o meu lado adulto pensou em se matricular em alguma luta que tenha um saco de pancadas envolvido em sua técnica.

Não podemos deixar passar desapercebido a construção desses enérgicos atores/narradores. Em cada fala dita, em cada movimento escolhido, percebe-se a seriedade e o respeito que esses atores tomam pelos temas da infância e pelo próprio teatro. Sem o corpo denso e tão treinado desses excelentes coletivos, esse encanto de encontro e essas tantas proposições não seriam possíveis de serem transmitidas. Nos despedimos por aqui, desejando que a carroça imaginária desses sensíveis e inteligentes artistas aportem por todos os lugares e pessoas que precisem enrijecer o músculo da imaginação.

 

William Costa Lima é pedagogo formado pela Universidade de São Paulo. Desde 2005 é diretor, dramaturgo e formador de artistas no Coletivo Pequeno Teatro de Torneado. É curador e cocriador do Sítio Cultural Alsácia (Ribeirão Pires).

O valor de se preservar a memória e contar histórias

Por Dib Carneiro 29 de outubro de 2016

 

‘Sementeira’, em cartaz no CCSP, é um espetáculo simples que estimula crianças e adultos a valorizarem suas lembranças

“A cidade ficou no escuro! As pessoas não conseguiam entender o que estava acontecendo, falavam ao mesmo tempo e ninguém se ouvia: queriam uma solução! No meio de toda aquela confusão, veio até nós um menino e ele trazia nas mãos uma semente. – Hum, o que foi? – Ele quer saber que semente é essa! Ela é tão pequena! Que cor bonita! Hummm… e tem um cheiro bom também! Esta é uma semente da sementeira de histórias! A sementeira é uma grande árvore que vai crescendo dentro da gente, criando raízes. São as histórias que a gente escuta e vive desde quando a gente nasce. E cada vez que floresce na nossa memória uma lembrança, temos vontade de contar pra alguém, como quem entrega uma bela flor ou fruta nascida desta árvore.”

Como não gostar de uma peça que celebra a importância de se contar histórias? O trecho acima talvez seja o que melhor resuma toda a delicadeza do espetáculo Sementeira, em cartaz até o início de novembro no Centro Cultural São Paulo. Dois grupos do ABC paulista – Garagem de Teatro, sediado em Ribeirão Pires, e Pontos de Fiandeiras, sediado em Santo André – juntaram-se e produziram uma peça que alerta para a importância de se preservar a memória. Sabe aquelas montagens em que tudo está correto, todos estão no caminho certo e as escolhas feitas são todas acertadas, mas ainda assim o espetáculo não figura entre os melhores do ano, não ganha prêmios, não arrebata os críticos? Assim é Sementeira.

Há poesia, mas talvez não o suficiente. Há humor e há emoção, mas talvez nem tanto. Há carisma no elenco, mas nada que empolgue muito. Há boas histórias, mas quem sabe não falte justamente o elemento surpresa, o ‘algo mais’ imponderável que faria a diferença. Difícil ficar palpitando sobre o que falta, porque teatro não se faz com receitas prontas de sucesso. O importante é registrar que o espetáculo é bom, fácil de ver, bem-intencionado. E que os dois grupos envolvidos são muito bem preparados e têm em mãos todo o potencial necessário para seguir fazendo esse teatro sério, responsável, comprometido com o passado, com “os quintais de nossas memórias”.

A escolha pela simplicidade em cena é uma chave importante para a qualidade do que se vê em Sementeira. A direção de João Paulo Maranho buscou criatividade em soluções simples, como o uso eloquente de adereços corriqueiros, como argolas (bambolês), cabos de vassouras, lençóis e cordas. Os efeitos de luz são inteligentes e estimulam a fantasia. A música, executada ao vivo, também agrada e encanta. As duas canções finais são bem compostas e deliciosas de se ouvir. “O lugar da imaginação, para onde a criança facilmente se transporta, é o lugar da possibilidade de transcender o tempo e a morte, da afirmação da condição de criador”, diz o diretor, embasado em muitas pesquisas feitas com os dois grupos. “Nessa perspectiva, o espetáculo abarca, além do público infantil, o público adulto que busca resgatar suas histórias juntamente com os atores narradores, refletindo sobre a necessidade urgente em garantir à infância o seu direito a este espaço do sonho, do impossível, do infinito.”

Como não gostar de um espetáculo assim?

Crítica publicada originalmente no site da revista Crescer

Dib Carneiro é jornalista e formou-se pela ECA-USP, em 1982.  Foi editor-chefe do Caderno 2do jornal O Estado de S.Paulo, função que exerceu por oito anos. É hoje um dos mais ativos críticos de teatro infanto-juvenil do País.

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